Dolores, autobiográfica, nada normal e verborrágica.

Meu nome é Dolores, o sobrenome ainda não importa. Tenho vinte e cinco anos e uma filha que há poucos dias perdeu seu primeiro dente.
Meu nome é Dolores, e você que me conhece, ainda não me conhece, e você que não me conhece ainda, também não. Isso é tão óbvio!
Estudo numa universidade particular, aonde eu sempre chego de carro. Carro, sabe? Todo mundo conhece carro, é do meu pai, mas é carro. Parece que sou Patty, mas não sou. Faço coisas como elas, chego na faculdade de carro, faço a unha, essas coisas, mas não sempre.
Tomo coisas. Umas pra ficar feliz, e umas pra agüentar minha felicidade. As duas coisas se completam e eu fico sempre cool. Mas eu sou acompanhada por um médico, que, por fim, insiste em usar barba. Não sei se por vaidade, por qualquer coisa, ou pra ser Freud. Mas, ele tem barba.
Tomo álcool, sim, eu tomo, e bastante. Mas nunca fiz vexame, assim de cair e ficar vomitando. Parece que eu bebo mais, mas só parece. Parece às vezes que eu tô bêbada, mas é aparência.
Aliás, minha vida é assim. Parece muita coisa, que só parece e nem sempre procede.
Perdi a virgindade aos 16 anos, na praia, com um menino que também era virgem. Lembro de tudo e foi bom. Ele nunca foi meu namorado e nós só ficamos assim, nesse dia. Ele tinha namorada, e ela não transava com ele, eu não tinha namorado. E por isso mesmo transei com ele.
Bebo demais. Sorrio demais, pareço um exagero, e talvez o seja.
Choro, e berro.
Já fiquei com muitas pessoas, mas o jeito faz parecer que já fiquei com mais.
Já transei com algumas pessoas, parece que são muitas, mas não são tantas assim. Claro, que pra quem conheceu apenas um pinto na vida, eu sou uma devassa. Mas com meus 25 anos, quase 26, nem tanto. Transei sempre que quis, e deixei de transar também. Claro, virgem não dá pra dizer que eu sou, eu tenho a filha aquela que contei, lembra? E ter filho e ser virgem é uma vocação e é uma parte de uma outra história.
Tenho o pai da minha filha. Que é um dos amigos que eu mais amo e respeito. A gente dorme na mesma cama. Sempre parece que a gente voltou. Mas só parece.
Eu disse um dia pra minha mãe que tinha fumado bastante maconha quando saí de casa, sei lá porque eu disse, e sei lá porque eu fumei, mas fumei mesmo. A vida é às vezes difícil de cara limpa e aos 17 anos.
Me acho boa mãe, parece que não sou, mas eu sou. Parece que a minha vida é um livro aberto, e é. Mas nem tanto. Tem coisas que eu não quero contar.
Não passo vontade, e nem sempre apareço nas fotos. Nem sei porque, nem como.
Meu prazer é a sedução
Parece que eu sou louca, insana. Parece mesmo, eu também acho. E até sou.
As pessoas acham que sou metida e durona. Isso eu acho que é só casca, porque na verdade eu não sou. Aí, as pessoas cobram demais. Por muitas coisas que supõem. Que acham que sabem, por muita coisa que parece, mas na realidade é como Denorex: “Parece mas não é!”

Dolores López, 02/02/06

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Baby blues.

Sentei na cama, chorei o quanto a alma agüentava.
Acendi um cigarro, e depois um outro mais.
Homens não choram, e eu até solucei.
Dolores tem sorriso doce, às vezes falso.
Tem pernas fortes, seios fartos e bom coração.
Mas Dolores é má.
Não sente dores, as causa.
Hálito quente, mãos insanas
Dolores é invasiva,
Nutritiva
Ela é clorofórmio puro,
Cheira bem e derruba rápido
Enlouqueci.
Sempre soube que ela poderia me enlouquecer.
Sua risada ecoa em minha mente.
Nos meus pensamentos tórridos.
Quero comê-la com força
Estocadas profundas, vertiginosas.
Quero matá-la
Apertar suas nádegas pálidas
Gozar na sua boca morna
Na sua cara
Paz
Buscando paz
Na sua alma tão serena
Na sua testa pequena
Ela me deu colo
Agora me abandona
Rouba meus chocolates
Rasga minhas vestes
Dilacerando a minha alma
Atordoando meus sentidos
Glorificando minha loucura
Dolores é puta
Cheira meu pescoço
Lambe minha orelha
Acende meu desejo
Me aquece e me congela
E enfim, hoje, me tem congelado.
Castrado
Frustrado
Desorientado
E desfigurado
Dolores vomita em mim a sede insaciável de amores
De outros
De vários
De muitos.
Me consola
Me desola
E me dá um amor de esmola
Pega meu coração e esfola
Não tenho mais fôlego
Ela não me recusa
Não me abusa
Me usa, me esquece
Entre gavetas bagunçadas,
Entre véus de tule e promessas de casamento
Dolores é dúbia, efêmera e contraditória.
Ela é confusa.
E ainda assim é eterna
Mulher insana
Crueldade infantil
Amor servil
Ela me troca por outros
Por outras
Sonha…
Com muitos, com tantos
Pede coisas que não posso dar
Me dá coisas que não posso aceitar
Recusa coisas que não quer, e as aceita.
Cospe no meu rosto
Ri do meu inferno, do meu desgosto
Ela fala nos meus sonhos
Canta pra eu dormir
Minha mãezinha
Putinha