Sempre que chove…

Sempre que chove alguma coisa em mim resseca, ainda que não seja o usual, pois com a chuva, algo deveria se umedecer, mas resseca, resseca porque dá medo, medo e frio, e vontade de não sair e de fugir de dentro de mim mesma…

Correr pelas ruas vazias, pelas noites escuras, pelos becos gelados e cair, lamber a imundície do chão, do sangue que da boca escorre e agora não mais a ti pertencer. Não, não vais ter-me, porque não sou digna de teu carinho, de teu afeto, nem ao menos sou digna de teu ódio!

Tenho-te e não quero, não quero querer-te e por vezes, quero…

Sofro pelos dias frios e chuvosos lamentando-me pela tua partida.

Morro um pouco ao lembrar-me de teus olhos úmidos, de tua boca úmida e de tuas vestes úmidas. Umedece-me a face…

“Não estou sentimental, eu o matei não se disparou …”

Mas fiquei sozinha, por amar-te demais e nunca conseguir compreender a dor nos teus traços, e eu te quis tanto, e tanto nos queremos os dois, mas… o que fizeste naquele momento foi imperdoável, tocaste o mais profundo da minha ferida, que ainda estava aberta… tu me feriste…

Eu avisei tanto… tanto…

Disse para não rir.. e riste… eu disse para não debochar… mas tu não podias deixar de fazê-lo…

Prometi não te machucar, mas naquele instante eu fui incapaz de deixar de fazê-lo. Disparei… contra teu peito, contra teu rosto, que ali no chão ainda esboçava um sorriso insano e infantil, enquanto eu me contorcia de desespero e ódio… vi o sangue escorrer pelo canto do lábio, e mais uma vez disparei contra teu coração… te amo León.

Coração mau… ele te matou, o meu, o teu. Fique feliz e por um momento minha alma se encheu de felicidade, eu te havia matado, com todo meu ódio, com toda minha gana, com toda minha fúria, esperei que fizesses o que eu queria e em seguida, acabei com teu risinho debochado!

Lamentei não teres sofrido, eu deveria ter te cortado, te furado, te pisoteado, a assim, quando já sem pulso, eu ainda te dei um tapa no rosto. Ah, só Deus sabe o quanto esperei por este momento, dar-te um bendito tapa no rosto!

Vai desgraçado, e agora viaja ao inferno, como tantos outros merecedores dele como tu, viaja…

Não posso sair, e nem sei ao menos se quero, mas sei que não estou certa de estar arrependida, ou se estou feliz por ter-te feito parar de sorrir, de debochar.

Me enjaularam, e por tua causa…

Sofri… minha cabeça cheia de dúvidas, cruéis, insistentes, obsessivas, eu poderia ter pedido à alguém para fazê-lo, mas não o teria sentido com tamanho prazer…

Fiquei ainda por horas olhando-te sangrar no tapete da sala, como eu ri de ti.. debochei… e te contei que não fui apenas tua, e ri…

Depois fechei-te os olhos…

Eu vou arder nas chamas do inferno… mas te mandei antes! Nem o Demônio vai te agüentar, tenho medo que ele te mande de volta para mim…

Aqui onde estou, é muito parecido com o inferno, mas pelo menos tu não estás, e isso me alivia a alma!

Eu fiz um bem para o mundo…

Fiz o bem para mim.

Fiz tudo isso por te amar demais. Quero estar perto, e não estás, e eu ainda te amo, eu vou pedir perdão, e tu vais aceitar, eu te amo, eu te amo…

Mas eu não pude suportar León, eu não agüentei a dor de ouvir tuas palavras, mas nós sabemos que mereceste…

Só nós dois saberemos, em breve nos veremos meu amor…

E eu te contarei tudo o que me aconteceu nestes últimos dias, depois da maior demonstração de amor que eu podia te fazer.

Eu te amo…

Dolores