“Vou cruzar os dedos que é pra ter certeza que eu não menti…”

“Vou cruzar os dedos que é pra ter certeza que eu não menti…”

Há anos eu já não acreditava mais no rock gaúcho, não sei se por birra, por descaso ou simplesmente porque há muito tempo não via nada acontecer.

Dado o fato de que eu só escutava rock argentino (que pra mim é o melhor rock que se faz nas américas) dava as costas a toda e qualquer manifestação de rock brasileiro, fosse ela o que fosse. Rock gaúcho, pra mim, havia nascido morto.

Numa dessas intermináveis buscas por uma festa que nunca se acabasse, por um show que fosse mágico, por pessoas que fossem inteligentes acabei encontrando alguém que se tornou muito especial, no lugar errado, mas na hora certa. E ele estava trabalhando, e, o seu trabalho era nada mais nada menos do que o rock gaúcho.

Ah, que decadente! Funerária de natimortos? Vai fazer o que? Carregar o caixão? Vestir jovens meninos que trabalham em uma coisa que nem sequer existe. E o deboche começava. Discreto, sutil, carinhoso, mas, sempre deboche.

Com calma trocamos experiências, fluidos corporais, poesia, filmes, letras e músicas. Trocamos a vida comum pela essência do que é, ou foi o roquenrou. Sem muitos rompantes, sem muito álcool, sem drogas, alguns “cigarros comuns até os dedos ficarem amarelos” e longas conversas.

Então eu dividi o Charly García (que ele chama de Charly Gracinha e de véia do rock) dividi o Fito (que ele sabe que não pode falar nada porque senão a casa cai). Eu dividi inclusive o Cerati, o Soda, os Babasónicos, o Sumo e tantas outras bandas que fazem parte de uma das coisas pelas quais eu mais tenho respeito: O rocanroll argentino. Pelo som, pela letra, pelo idioma, pelo país, e por todas estas coisas que me deixam efusiva, elétrica e falante. O rocanroll argentino me emociona, me dá paixão. E eu estudo, leio letras, escuto, releio, mil vezes até dizer se gosto. Até dar o veredicto. E, se todos estes “cantautores” soubessem do número de vezes que eu os escuto, e a concentração que dispenso com o estudo profundo que faço do que produzem, certamente eles dariam atenção ao que eu digo. Eu, ouvinte, estudiosa, crítica. Ouvinte porque ouço, e uso de todos os meus sentidos, eu sinto todas as palavras. Letras, a minha vida é feita de Letras. Em espanhol, português, inglês, italiano.

Até que, um dia desses, depois de me dar um disco do Radiohead, e um do Coldplay, eu pedi que, ele, esse menino que eu gosto tanto, que eu admiro tanto, me desse um disco da banda que tocava no dia em que nos conhecemos. Cartolas, que na minha ignorância achei que tocava alguma coisa do Cartola. E a gente se reconheceu. Eu e o rock gaúcho. Digo que nos reconhecemos porque já nos conhecíamos, e eu confesso humildemente (difícil pra quem assume uma postura tão porteña): eu gostei. Coloquei no carro e escutei a fio por uma semana, dez dias. Esquadrinhei letras e músicas, pensamentos, filosofias, personalidades. E desta vez, comecei a me sentir em casa, e isso “não quer dizer que eu nunca mais vou rir de tal situação, com cara de vilão”… Passada essa febre, passamos a outra banda, que proporcionou vários dos nossos encontros fora das nossas bases. Vera Loca, e eu gosto desse nome, mas eu chamo de Viejas Locas, Velhas Louças, Velhas Roucas. Até porque, fazer chacrinha só com o nome dos argentinos não seria coisa que eu permitisse. E eu reconheci de novo a pureza do rockanroll, despojado, descarado, escrachado (“es que ya no soy tan chico ni tan puro, que hasta me parece ingenuo el rockanroll”). E eu tive que dentro da minha cabeça fazer ressucitar o rock gaúcho. Mais uma vez, dei o braço a torcer, e gostei. Mais uma vez, voltando pra casa, eu tive que me calar e dar o braço a tocer, foi uma experiência inovadora, concreta, tranqüila, eu esmiucei mais um disco, frase por frase, letra por letra. Voz. Atitude, o rock é feito de atitudes, e achei de novo neste disco. Gostei desses guris, o Fito teria gostado também, eu sei, conheço ele “desde mi más tierna edad” ele é de peixes, ele gostaria sim. O Cerati teria ficado encantado e o Charly mandaria “meterselo por el orto” mas é que o Charly anda “superchiflado” e pode. Disso tudo, sei que Vera Loca foi meu “prato predileto” pelo menos essa semana. A displicência do rock, a cara de gaúcho, o sotaque. Aliás, é uma das minhas outras “loucuras”, letras, músicas, idiomas e as variáveis, os sotaques. Vivo isso, respiro isso, estudo isso e imito isso. O rock da Vera me fez mais feliz essa semana.

Juro, não cruzei os dedos, e não menti. Vou passar a defender mais o meu estado e a música que se faz nele, vou defender as boas bandas. Porque eu escuto, e posso falar.

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