Pedaços, cacos e fragmentos

Somos seres fragmentados.

Metáforas de nossas existências.

Doentes, talvez mal amados.

Descrentes de nossa plenitude.

A gestalt não foi fechada.

Liguei e ninguém me atende.

A gravação não sente nada

Quem sente sabe e ainda assim não se surpreende.

Agora somos um conjunto de gavetas.

 
Tudo separado, rotulado e triste
 
Na insistência de negar que todo o resto existe.
 
 
Daqui, do silêncio barulhento da minha mesa, na repartição que também tem coração, suscitada por um colega lá do fim do corredor numa quarta feira chuvosa rezando pro dia acabar e nascer amanha, melhor, talvez igual. Mas ainda assim que ele se repita.
 
Corn Fields, 24.11.2010
 

Xiliques e tremeliques

Eu tenho calafrios, náuseas, medos e pavores. Eu tenho nojos, desgostos e sentimentos que quis guardar, mas não pude. Eu tenho crises, sonhos, aflições…
A moça de vestido de botijão é dotada daquela característica triste, porém risível: a canela grossa! A pesoa pode ter defeitos físicos de todo feitio, mas canela grossa é hilário.
A mesma moça largou o filho para o pai, como se fosse pacote, como se fosse uma trouxa de roupa lá na lavanderia. Largou e virou. E saiu. Não deu as horas, não deu bom dia, não contou da semana.
Reclama a presença daquele pai na vida do filho, mas o que oferece? Porque não ameniza esta dor? Não poderia o filho por acaso ter uma dor maior que a dela? Não, ela tem que ter toda a atenção para si. Oferece: Jogos, cartinhas, chicletes, distância e atenção controlada, medida e de pouco valor afetivo. Parecia que ela queria pra ela a atenção do pai. Egoísmo é muito triste e infantil.
A moça da canela grossa disse que se o filho reprovar a culpa será do pai. Prova que além de inescrupulosa é muito sem recursos. A culpa na verdade é dela. Por que? Ainda que responder o porquê não tenha cabimento, a resposta: A culpa é dela porque é a relação mais constante é a dela, porque mães ensinam a ler, mães dão colo e carinho, escutam, e riem. Mas a presença dela na vida desta criança é constante. É constante e dá pena da criança. Obviamente a moça de poucas luzes fala muito palavrão, pois é assim que o menino bonito de olhão grande se comporta. Logicamente a moça que quer ser inteligente só enxerga a si mesma e não oferece carinho para o menino de nome de índio, é visível pelas atitudes do menino que quer carinho e não consegue se expressar. Quando a moça que quer ser moderna pensar no seu filho como um ser a parte, um ser que tem necessidades, sonhos, desejos, escola e avião de papel. Quando ela se der conta de que ele aprende pelo exemplo, e ela, infelizmente é o pior exemplo de que ele pode ter conhecimento. Ela deverá ser humilde e dizer: “Não tenho condições de gerir a vida do meu próprio filho, por favor, faça-o por mim” E neste momento tudo vai se iluminar e ele vai morar aqui em casa. E eu vou seguir com meu tornozelo fininho, vou seguir sendo culta, inteligente, moderna, porque eu dedico meu tempo a aprender e reconhecer a necessidade das crianças e as minhas. Porque eu organizo o tempo delas e o meu de forma que seja bom estarmos juntos e que eles estejam aprendendo algo enquanto não posso estar com elas. Porque eu tenho útero de verdade. E esses hormônios ajudam a que a única mãe da história seja EU! Que sou meio travesti, que faço carão na 3×4, que rio, mas que sei fazer avião de papel como ninguém, e tenho um colo grande, um beijo grande, um peito grande. E dou colo pra sempre. Porque quando eu assumo um filho, quando eu assumo uma pesoa afetivamente isso é eterno. Criança não é brinquedo, criança é gente em tamanho pequeno, precisa ver gente em tamanho maior, que ama, e quer vê-la feliz, porque está de acordo com a criança que tem dentro de si. E tudo vira cantiga de roda.