A arte da maternidade

Criar filhos para serem independentes.
“Mãe, mas o que tu queria que eu fizesse? Tu tava parecendo um leão fazendo grrrrrrrrrrrr”
E ela tem razão, eu tava.
Meu interesse primeiro na vida é estar cercada de seres independentes, como eu também tive a ânsia de ser.
Nunca dependi de opinião, aprovação, auxílio. Quando eu pedi abraço sempre ganhei, sempre dei.
Ajuda para tarefas de casa, não. A minha velha mãe/miss/filha/professora/chorona diz: “Minha mãe nunca me ajudou com os temas”.
E tá… Fazia, pesquisava, entregava. Pronto.
Eu achava tão estranho que quando saí de casa (eles que quiseram se mudar, eu não) a minha mãe chorava quando acabavam as férias e eu voltava para a minha casa bagunçada/minha cara/com tevê vermelha/paredes escritas.
A maternidade ensina.
Minha nena é a mais linda das criaturas vivas. Educadíssima, espirituosa, feliz, com olhos de jabuticaba que emocionam até estátuas.
Fazem sorrir o vô de bigode, que faz massagens relaxantes nos pés com o mais puro cabernet suvignon, e é o estudioso-único-aluno-suficientemente-paciente para fazer as provas e os trabalhos propostos pela doce figura tirana e afetiva. Cheia de ponderações, tiradas geniais, preferências e cabelos tão meus que são dela.
Nós sabemos reconhecer o bem que faz a ela viajar para o lado de lá da fronteira. Falar castelhano “simplemente porque la vida es así”, ou porque “a ver, a ver”.
Eu sei, entendo, e amo que pelo menos uma vez por ano ela possa estar na companhia daquela parte da família com quem ela é tão parecida.
Mas, como a maternidade é uma arte que se aprende, e eu aprendi das minhas mães, avós e bisavós… E eu entrei no quarto da minha Pucca, da minha Nanica, da Banana, Enana, Naná… e eu chorei, tudo por causa daquela maldita chuteira cor de laranja e os lápis de cor espalhados.
Porque senti falta dos porquês, das explicações sem fim, das teorias cabulosas sobre todas as coisas que existem. E sobre o Harry Potter, Fiuk, AC/DC, Ramones e Skate.
Sobre meu xampu de brilho gloss. E porque ela quis usar meu condicionador e agora ele tá rachado. Porque não precisa de grito, não precisa de palmada e nem de chinelo, se precisasse, talvez, mas nem isso. Porque eu tenho saudade, e mais da metade das coisas que eu faço não fazem o menor sentido sem ela.
Espero ansiosa que passem os próximos quinze dias.
 

Spinetta para Cerati!

Dios Guardián Cristalino de guitarras
 que ahora 
más tristes
 penden y esperan
 de tus manos la palabra
 Precipitándome a lo insondable
 tus caricias me despiertan a la vez
 en un mundo diferente al de recién… 
 Tu luz es muy fuerte
 es iridiscente y altamente psicodélica
 Te encuentro cuando el sol abre una hendija 
que genera notas sobre la pared sombreada
 Y suena tu música en la pantalla
 sos el ángel inquieto que sobrevuela
 la ciudad de la furia 
Comprendemos todo
 tu voz nos advierte la verdad 
Tu voz más linda que nunca

Luis Alberto Spinetta – Para G. Cerati 


¿si lloré? uffff