Feliz Aniversário Metrópole!

A metrópole do vale também é rota do tráfico. Aqui, gastam-se vários reais em queima de fogos, em sinaleiras ultramodernas.
Na grande metrópole a cultura quase não nos importa, nem mesmo a educação, aqueeeeela que vem de casa.
Nesta quase capital só tem um cinema que tirânica e ironicamente só passa o que convém e está no main stream.
Tá certo, quero demais… Talvez.
Mas o crescimento vertical, o uso desenfreado de drogas entre adolescentes tardios de quase quarenta anos.
Protestos sem cabimento de gente que protesta por um lado e às costas da mídia fura fila de mercado.
A grande metrópole do Vale não tem conduta, não tem critério.
Aqui todos especulam os nomes de nossas mães e pais, os sobrenomes de nossos avós.
Pra quê, se até já morreram? Aqui nesta metrópole tem bastante trabalho, bastante dinheiro, e um pouco de sossego.
Mas minha alma desassossegada, revoltosa, se incendeia. O povo da cidade é germanicamente passivo e não pacífico.
Aceita, tem vergonha de reclamar, de enfrentar. Mas em contrapartida se corrompe: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.”
Os grandes jornalistas, ou AS grandes revoltadas também são corruptíveis e seu temperamento “vovó rebelde sem causa” beira a sandice.
De tudo reclamam, tudo malham, mas lá no fundo o fazem porque seguem à margem. E o querem assim.
Aqui na Capital do Vale é mais cômodo seguir “al lado del camino”.
Sempre com uma pontinha de inveja, recalque…
Qual é o barato, senhores? O barato agora é crack.
No Belvedere da Ciclovia, no vestiário do campo de futebol. É adolescente comendo lixo e imigrantes transexuais em busca do grande mercado.
Amo a cidade que me recebeu, mas repudio de forma completa toda essa hipocrisia e essa falsidade que estão já enraizadas na história.
Parbéns pelos 120 anos!!!
 

Tentação – Clarice Lispector

    Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.
    Na rua vazia as pedras vibravam de calor – a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto de bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço, a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher ? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
    Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão do Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnado na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.
    Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
    A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.
    Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava ? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.
    Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
    Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
    No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos – lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.
    Mas ambos eram comprometidos.
    Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ele fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
    A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreendiam. Acompanhou-os com os olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.
    Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.

 

CFA – Dois ou três almoços, uns silêncios – fragmentos disso que chamamos de "minha vida"

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector “Tentação” na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.


(Publicado no jornal “O Estado de S. Paulo”, 22/04/1986)

P.D.: A grafia do texto de Caio Fernando Abreu foi completamente mantida. Não foram feitas alterações no texto – que não segue o Novo Acordo Ortográfico de 1990

Sonho bizarro.

Os sonhos nos levam a lugares distantes… Estranhos até
Sonhei com uma menina feia, vestida como a Alice, a do país das maravilhas mesmo…
Mas de cabelos desgrenhados, meio ruivos.
Um vestido todo rasgado, como se tivesse molhada, ou apanhado.
Batom rosa choque borrado em uma boca esquisita.
Tu viu a moça? Vi, ela fez isso quando tinha quatorze anos… Pior foi o cara que tirou a virgindade dela…
Se essas coisas moram no meu inconsciente eu preciso confessar: ELE ME ASSUSTA
 

de 2010 nós temos – retrospectiva existencial

Nascida em 1980 em 2010 ela fez trinta e, enfim entrou para o famigerado grupo das balzacas. Segundo Honorè de Balzac:

“Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis para um rapaz… Com efeito, uma jovem tem ilusões, muita inexperiência, e o sexo é bastante cúmplice do amor… ao passo que uma mulher conhece toda a extensão dos sacrifícios que tem a fazer. Lá onde uma é arrastada pela curiosidade, por seduções estranhas à do amor, a outra obedece a um sentimento consciente. Uma cede, a outra escolhe… dando-se, a mulher experiente parece dar mais do que ela mesma, ao passo que a jovem, ignorante e crédula, nada sabendo, nada pode compara nem apreciar… Uma nos instrui, nos aconselha… a outra quer tudo aprender… Para uma jovem seja amante, precisa ser muito corrompida, e então é abandonada com horror, enquanto uma mulher possui mil modos de conservar a um tempo seu poder e sua dignidade… A jovem… acredita Ter dito tudo despindo o vestido; mas uma mulher… se esconde sob mil véus… afaga todas as vaidades… Chegando a essa idade, a mulher sabe consolar em mil ocasiões em que a jovem só sabe gemer. Enfim, além de todas as vantagens de sua posição, a mulher de trinta anos pode se fazer jovem, desempenhar todos os papéis, ser púdica e até embelezar-se com a desgraça”.

Em 2010 ela aprendeu o comportamente de quem tem ainda o frescor dos 20, mas tem a experiência (que está ligada ao tempo) de ter vivido mais 10 anos. Muitos lembrarão, a maioria que passou por ela até então. Poucos esquecerão, porque essa magia, essa feminilidade que só vem com o tempo era uma aliada e tanto.  Casa, ajustes, relacionamento. Porque aos 30 anos ela dormiu todíssimos os dias de 2010 com o homem que ama. O amor de sua vida. Porque a insegurança é um sentimento imaturo, e porque tudo o que não lhe agrada, ela corre e dá um jeito de mudar. A beleza está em coisas que não se pode contar. O sexo tem o sabor maduro de quem se conhece e se permite conhecer, de quem sente prazer por isso. As tarefas, a mãe-mulher-profissional-esposa-dedicada-política-polêmica, criam esta atmosfera de um mistério tranquilo, perfumado. A forma como pode rir de si mesma.  Era simplemente insoportable!
Leia o que Mario Prata disse sobre as balzaquianas.