… Sobre mim e as minhas preferências

Sim, você tem toda a razão. Eu não gosto de levantar cedo. Segunda feira? Pior ainda! Queria que o mundo todo fosse de beber e desse barato. Até pouquíssimo tempo atrás me apeguei no trabalho burocrático, fazendo-o com paixão, mas com muita revolta e algum tipo de desespero. Não gostava do horário, do formato, mas era o que tinha. Não fora para tal que eu havia nascido. Mas, meu pai havia me dito: “corre pra rua, vai trabalhar, não posso te sustentar pra sempre, e faz tua faculdade até o final.” Psicologia? Sim, bonsdrink, consultório no Moinhos de Vento. Mas eu não era essa patricinha toda. Em contato com a psiquê humana, me dei conta de coisas bem simples. A paciência a gente tem, mas precisa ser exercitada. As crianças mostram resultados em situações terapêuticas, mas as suas mães são também as maiores sabotadoras, e isso, era muito chato. Psicologia infantil não ia vingar. Me dei conta também que em relações terapêuticas com dependentes químicos a paciência tem que ser muito mais exercitada, porque o psicólogo quer ajudar, mas, eles nem sempre, mas os DQ têm essa característica de querer enganar, de achar que podem ludibriar, e são sempre usuários, da força e da boa vontade. Mas a Psico sempre foi e sempre vai ser um universo mágico, grandioso e cheio de possibilidades. Quando eu saí da minha terra natal, ainda na universidade (sim, foi o que eu fiz por mais tempo, universidade) tive que transferir meus estudos para Cornfields, e, aqui, o curso de Psico estava no começo, não teria turma para que eu cursasse o 7° semestre. Como eu já havia feito Letras, resolvi seguir. E então, pasmem: Encontrei uma coisa preciosa demais: OS ALUNOS. O que antes era um estudo pequenino, individual, o respeito a um universo particular e diferente a cada sessão se tornava uma multiplicidade, eram universos individuais e mais um universo coletivo para cada turma. E isso, era mágico e assustador. Em média são 16 anos de diferença, apesar do senso prático e da adolescência tardia dessa professora que vos fala. Eu gosto de diminuir o espaço, e sinto, em muitas vezes, que eu tenho a idade deles. Às vezes eu gostaria que eles entendessem o respeito pela posição de PROFESSOR, mas isso é algo de que eu preciso me encarregar, e eu levo isso muito bem. E a minha cachaça no momento, são eles. Reconheço cada cara de sono, cada permissão que eu dou para sair. Não pode sair, não, mas… É tão ruim ficar trancado aqui dentro, ver a vida passar lá fora, e eu aqui entre pronomes e metáforas, entre os elementos anafóricos, as orações subordinadas, entre dos e donts, eu queria fazê-los entender apenas, que o tempo presente é de estar na escola, e sair dela o mais rápido possível para que possam.. mentira, eles nunca mais vão poder fazer o que eles querem. O mercado de trabalho está ali, na porta, e ele vai roubar o tempo de cada um dos meus alunos. Queria dar a eles autonomia, de fazer, falar e pensar o que quiserem, e ok… Eu queria que eles entendessem que o que eles fazem aqui, comigo, dentro da sala é um tempo que eles economizam ali na frente. Que eu não sou a sabotadora da vez e que quero muito vê-los sorrindo, e vivendo bem, e crescendo, como vejo acontecer diariamente. Ser interessante para pessoas de 14 a 18 anos é tarefa relativamente difícil. Mas fica, vai ter aula! Se eu pudesse fazê-los entender que quero todos perto de mim, pra mim, comigo. Pra gente subir junto, crescer, escrever melhor, entender espanhol, inglês, português ou literatura. Que a escola vai fazer falta daqui a dois quarteirões, dois anos, ou alguns dias mais. Queria que soubessem disso, da forma mais sutil: PRECISO DE CADA ALUNO, TANTO OU TALVEZ MAIS DO QUE ELES PRECISAM DE MIM. Existem outros professores, talvez. Existem outros alunos e todos nós vamos passar uns pelas vidas dos outros, mas eu queria que eles entendessem, que depois deles, levantar de manhã ficou mais fácil, e que se eu estou lá para eles, é porque muito acima de salário (eu AINDA NÃO RECEBI) preciso deles, por uma razão bem bobinha e de mulherzinha: AMO o que faço e sobretudo AMO MEUS ALUNOS, confio neles, no potencial que cada um tem, nas opiniões que divergem, nos olhos que fulminam. E porque sim, “tô muito aí” pra cada um deles. Pra ouvir, pra dividir, pra reclamar deles, com eles e pra eles. Falei que eu AMO?