uma história para se contar…

nem mesmo no final da gravidez eu tinha chegado nesse peso… um dia, colocando minhas botas percebi que estavam esturricadas na batata da perna. (o quêê?) sim, até eu que tinha perninhas finas consegui chegar a isso. percebi com o passar dos dias… (e dos quilos) que cada vez me olhava menos no espelho, vestia uma roupa, e saía. cada vez tinha menos roupas, pois as de tecido não serviam, e as de malha apertavam. cada vez mais apertadas. mas a malha cede, e faz de conta, ajudando a pessoa a se enganar, que cresceu junto com o corpanzil. cada foto que tirava era cuidadosamente deletada, e, apenas as fotos mais necessárias eram permitidas. 

não me sentia péssima, mas sentia o desconforto de cruzar as pernas diferentemente, de ter dificuldade de amarrar o cadarço, de me sentir gorda. ao me deitar a gordura apertava meu pescoço, e eu roncava. eu mesma deformava a casa do meu espírito, que eu havia recebido inteira, direita, sã. eu estava gorda, com medo de me pesar, me sentindo feia… péssima. até a academia era um suplício. que graça malhar entre os magros, suando feito uma porca? isso não é bullying, eu estou falando de mim, cada um tem que saber de si. parei de me enxergar, e comecei a descontar na comida a frustração de ser uma bola. 

como trabalho até tarde, chegava em casa e chamava um XIS, uma PIZZA, uma coca cola. às vezes (toda a semana pelo menos uma vez) entrava na garrafa e tomava mais de um litro de cerveja. no outro dia, de ressaca, tomava coca cola, e comia as coisas mais gordurosas que eu conseguisse. 

quando eu resolvi emagrecer, foi por mim, para mim, e a resolução foi minha. não adianta ninguém enumerar os problemas de ser gordo, da circunferência abdominal, da importância de se cuidar, o olho de desaprovação do outro, as palavras, as “dicas” só ferem e magoam, e a gente desconta na comida, no trago e no doce. 

no dia que eu me olhei, eu estava realmente gorda, e, estava deixando de me amar. talvez até por assumir para mim um corpo e um peso que não me pertenciam. as palavras que me fizeram pensar nessa realidade foram as palavras francas, honestas e simples do meu pai e da minha filha. quando me queixei de dor nos tornozelos (eu calço 36) meu pai me disse:” também, rodinha de fusca carregando jamanta”, doeu, mas doeu engraçado, e eu ri. um dia, perguntei pra minha filha: “tu acha que eu tô uma gorda feia?” e ela me respondeu: “acho que tu descuidada… mas foi tu que perguntou, e tu me ensinou a nunca mentir quando se é questionado” e eu fiquei bège, mas ouvi.

ninguém gosta de ser gordo. nem o Jô. por que eu, exibida ia gostar? foi esse o dia que eu resolvi procurar um médico. um clínico, para ter a noção da dimensão do estrago que eu tinha provocado em mim mesma. e eu me assustei. além do peso físico carregava a carga de estar me escondendo dentro da capa isolante da minha gordura. todas as taxas estavam alteradas, exceto glicose. triglicerídeos, colesterol, a zona. esteatose hepática, gama GT e dores de todo tipo. reduzi a comida lentamente. no primeiro mês emagreci quatro kg, nos próximos dois, dois, três, e nesse último quatro. depois de seis meses totalizei DEZENOVE kg. e não estou “magrinha”, ainda tenho alguns passos para dar. 

qual é a receita?

amor próprio, firmeza emocional, honestidade consigo mesmo. muita água. nunca deixar de comer o que quer,  mas, observar o limite e a necessidade do corpo. nunca tomei refrigerante light, diet, zero. não tomei uma gota de adoçante. não fui pra academia morrer de suar. sempre que eu quis comer bolo, chocolate, bolacha, pastel, cuca eu comi, mas comi um quarto do que eu comeria, buscando sempre uma compensação. se eu quero comer um chocolate, mais tarde eu não vou comer pão, vou comer fruta. 

a alimentação é um jogo de peças que se encaixam. engordar ou emagrecer tem mais da metade de fatores emocionais a serem analisados, respeitados e tratados. tomei uma medicação para ansiedade, que eu acabei retirando por conta própria, porque me deixou com uma sensação de brochume. (e não adianta ser mega gostosa e não dar pro marido) sigo tomando espironolactona para o meu ovário policístico (anti androgênico), e tomei orlistate, que faz uma separação lipídica para que a gordura não seja absorvida pelo meu organismo. 

estou mais leve, mais feliz, mais disposta, passei um pouco de fome, mas estou bem, porém é bom lembrar: milagres não existem, remédio de nenhum tipo resolve obesidade se a pessoa comer igual. é como colocar gasolina no tanque do carro e não andar com ele, ele não gasta, e aí a gente vai, e coloca mais, e mais… e ele não gasta. aí, sobra. e essa sobra é gordura. alimente-se para viver, mas não viva para se alimentar. tem mais coisas bacanas pra se fazer. não tome remédios sem o consentimento de um médico, e, muito importante: confie no seu médico, reconheça-se e procure ajuda. 

olhe-se, problematize se não ficar satisfeito, brigue com o seu organismo, com seus pensamentos. emagreça o cérebro. veja-se magro, sinta-se magro. não é fácil, mas não é impossível, e não queira resolver de hoje para amanhã um problema que foi acumulado durante meses. funciona e não mata.

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