a la salud

alimentar a prole talvez tenha sido por muito tempo o sentido mais vigoroso da maternidade. exige talentos, alguns sutis, alquímicos, de bruxa. outros, mais graves, pesados, verdadeiramente físicos. e exige, no meu entender, amor.

as leoas mães, lambem seus filhotes, caçam, e os alimentam. não para complacê-los*, para perpetuar a própria espécie. no final das contas, eu não sou leoa, e, nós, os humanos, somos dotados de desejo, essa libido que é nosso apetite, que gera, na necessidade de comida, a seleção por aquilo que nos aguça os sentidos e satisfaz este prazer.

comecei lá atrás, em pipocas, bolos de chocolate e bolachinhas de limão. era pequena, talvez, nove ou dez anos. meu avô me deu cozinha, começava cedo na função, no nascer do dia. com o mate em punho e um aventalzão jeans, escolhia o feijão cuidadosamente, escolhia e lavava também o arroz. ao mesmo tempo que fazia o almoço/jantar, fazia as saladas, e, a sobremesa, se desse tempo, um bolo, feito em uma forma especial que o assava na boca do fogão. o que realmente importa aqui é que ele o fazia com amor, justificava a carência, a falta que nós todos fazíamos na vida dele em tempo integral, oferecendo-nos banquetes. pratos decorados, arroz moldado na xícara. o vô era tudo o que alguém poderia querer como um vô.

herdei, (aqui é o meu ideal) o gosto de agregar gente, de descobrir admiradores em delicadezas à mesa. busquei, de alguma forma, dentro da culinária simples e campeira do meu avô ajudante de cozinheiro da marinha, refinamento e requinte. uni ao arroz de carreteiro, ao mocotó e aos assados, verduras exóticas, sabores estranhos, ácidos e picantes como eu, e como era o meu avô que aniversariava no dia do gaúcho. 

hoje, fiz uma torta de carne, nada de especial, carne moída, ovos, cebola. recheei-a cuidadosamente com brócolis, cenouras, champignons frescos, muçarela, e amor. para que a minha família, ao meio dia, soubesse mais uma vez, o quanto os amo, e a real importância de poder alimentá-los da forma mais limpa, honesta, saudável e gostosa possível.

cada vez que eu sirvo o almoço, que eu faço um bolo, um alfajor, um café, um suco escalafobético, eu estou “falando”, e fazendo alguém tragar uma dose de amor.

é o amor-trabalho, amor-esforço, amor-tempo, amor-paciência. é, enfim, amor. toda vez que eu cozinho, seja o que seja. risotto de funghi secchi, requentados de ontem, tudo carrega de mim, para ir aos que me rodeiam, uma dose grande de amor. porque o amor é o que falta nas pessoas. e eu cozinho por amor. acima de ser minha obrigação, a minha culinária é minha fonte de prazer, introspecção, e de dizer um “eu te amo” que pode ser mastigado e engolido.

é a forma mais humilde e sincera que eu tenho de agradecer por ter alimentos e formas de alimentar minha família, buscando um bocado de amor a cada mordida. é um trabalho que eu faço pra que os meus sempre queiram vir para casa almoçar. sempre.

 

* o verbo complacer eu trouxe do espanhol, e, neste idioma significa causar a outro prazer, satisfação, agradar.

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