Gayzistinha burguesa? Presente, senhor!

Em uma discussão, fui chamada de “gayzista”, achei graça e tive que fazer algum tipo de esforço para compreender o sentido da expressão. Machista, feminista, chauvinista, comunista, elitista, castrista. Mas, não era apenas o sufixo –ista, era o –zista que me incomodava no todo do neologismo. Obviamente porque –zista vem para nos remeter a nazista.

Esqueci o nazista, ou o sentimento feio de repulsa e asco me impediriam da clareza da minha análise.

O sufixo –ista vem do latim, e é originado no grego como –istés, ou seja, tem origem do latim, e no latim ele se origina do grego.  Representa o ofício de uma pessoa (como em dentista, desenhista, taxista) ou que se é partidário de uma doutrina, como eu disse no início. O hobbie de uma pessoa também vai levar ao mesmo sufixo (alpinista, filatelista), e pode ser um traço da personalidade (fetichista, masoquista, egoísta).

Ainda achava que a pessoa estava se referindo a mim como “gayzista” pela minha atitude incisiva e direta no que diz respeito ao preconceito.

Mas, por que seria eu considerada então uma ativista gay, ou uma gay qualquer coisa? Se eu nem sou gay, ou sim.

Compreendi com os recursos que tenho, racionalizando, obviamente, que ser gayzista deveria passar a ser uma questão de honra. Não individual, coletiva.

Nascemos, todos nós, através de seres do gênero feminino, a quem nós grosseiramente costumamos chamar mulher, e no caso de filhos (esqueceremos o nome dessa mulher) a chamamos de “mãe”.  A mãe é, sem sombra de dúvida o primeiro objeto de desejo sexual de todos nós (não sejamos extremos e não coloquem aqui crianças que foram abandonadas, que perderam a mãe e todos esses casos atípicos). Sendo um menino, o primeiro objeto de desejo ser a mãe constitui-se na heterossexualidade, mas, em sendo meninas, já temos o instinto de desejar alguém do mesmo sexo nos primeiro minutos das nossas existências.

Não, nós não somos todas sapatas, mas nosso primeiro objeto de amor sim o é! Isso, sem sombra de dúvida, nos leva a acreditar que é o nosso traço mais forte da sensibilidade feminina. É ele que faz com que nós tenhamos mais “facilidade” (veja bem, não me recrimine) em aceitar nossos desejos sejam eles quais forem. É mais fácil para uma mulher (ou talvez apenas para mim?) aceitar, não sem culpa imediata, mas com uma culpa não traumática, que sim, achamos as mulheres bonitas, e muitas, mas muitas vezes nós as desejamos. Outras vezes sonhamos que estamos beijando e até tendo uma relação sexual com uma outra mulher, e até com mulheres próximas e de nossas relações. Para um homem costuma ser mais trabalhoso, mais difícil lidar com esse desejo.

Talvez eu seja gayzista, gayísta, gayófila, ou qualquer adjetivo que me for imputável, assumo, meu desejo, meu aparelho reprodutor, minha mente e meus instintos me levam para um aspecto interessante da minha existência. Não tenho medo de desejo. Não tenho a crença de uma sexualidade estanque. O corpo físico é um, ele existe. De corpo, como eu me identifico? Gênero feminino. Completamente, com todas as crises ováricas, com TPM, histeria. Com uma filha. Concebida e vinda à luz pelo mais feminino dos meios: parto normal. Como eu me oriento sexualmente? Heterossexual. Como me oriento afetivamente? Amor não tem gênero. Amo as pessoas, e isso basta. A minha orientação sexual é dinâmica, como é a vida. O meu desejo se orienta, ele sabe de si, o meu afeto se orienta, ele sabe de si também.

Não vejo uma mulher e fico com tesão. Na verdade, vejo um homem e nem sempre me dá tesão, o que me dá tesão é gente…  Nesse momento, em 2013, aos 33, tenho tesão por homem, por mão, cheiro, não perfume, o cheiro que tem um homem, roçar de barba, aperto forte, perna, hálito. Homem é diferente.

Até quando vou ser assim? Não sei.

O que me importa é que gayzista ou não, defenderia até o último traço de força, o direito dos seres que me rodeiam, dos que existem, o direito que nunca nos poderá ser negado de sermos felizes. Não amigos, ninguém vai ser obrigado a ser gay, nem a ser nada. Seremos sim, e eu me ajoelho para rezar esperando este dia, obrigados a ser tolerantes, maduros.

Enquanto encontrarmos na diferença um pretexto para a superioridade NADA funcionará da forma correta. Diferente é DIFERENTE, não é pior, nem melhor, e dar aos homossexuais o direito de expressarem seus afetos, não pode ofender. Porque AFETO NUNCA OFENDE! O que ofende é o fundamentalismo e a forma como as pessoas vêm se blindando a uma questão que não é externa, é uma questão da nossa vida, da minha e da de todo mundo.

Se o fato de eu me incomodar com a injustiça, com a intolerância, com a negligência para com um semelhante meu, que tem ideais, sonhos, desejos, que são SÓ DELE, faz de mim uma “gayzista”, pois, eu só posso dizer e assumir. Sou uma baita GAYZISTA!

el amor después del amor.

el amor después del amor.

a veces se me pasa.

hay un dolor adentro, resolvió dar por doler hoy. en mí que nada hice por sentirlo. ese dolor es como correr de un animal en su misma dirección. te va matando, te va haciendo sufrir, llenándote el alma de penas, y no son con rumba, esas hijas de puta.

uma história para se contar…

nem mesmo no final da gravidez eu tinha chegado nesse peso… um dia, colocando minhas botas percebi que estavam esturricadas na batata da perna. (o quêê?) sim, até eu que tinha perninhas finas consegui chegar a isso. percebi com o passar dos dias… (e dos quilos) que cada vez me olhava menos no espelho, vestia uma roupa, e saía. cada vez tinha menos roupas, pois as de tecido não serviam, e as de malha apertavam. cada vez mais apertadas. mas a malha cede, e faz de conta, ajudando a pessoa a se enganar, que cresceu junto com o corpanzil. cada foto que tirava era cuidadosamente deletada, e, apenas as fotos mais necessárias eram permitidas. 

não me sentia péssima, mas sentia o desconforto de cruzar as pernas diferentemente, de ter dificuldade de amarrar o cadarço, de me sentir gorda. ao me deitar a gordura apertava meu pescoço, e eu roncava. eu mesma deformava a casa do meu espírito, que eu havia recebido inteira, direita, sã. eu estava gorda, com medo de me pesar, me sentindo feia… péssima. até a academia era um suplício. que graça malhar entre os magros, suando feito uma porca? isso não é bullying, eu estou falando de mim, cada um tem que saber de si. parei de me enxergar, e comecei a descontar na comida a frustração de ser uma bola. 

como trabalho até tarde, chegava em casa e chamava um XIS, uma PIZZA, uma coca cola. às vezes (toda a semana pelo menos uma vez) entrava na garrafa e tomava mais de um litro de cerveja. no outro dia, de ressaca, tomava coca cola, e comia as coisas mais gordurosas que eu conseguisse. 

quando eu resolvi emagrecer, foi por mim, para mim, e a resolução foi minha. não adianta ninguém enumerar os problemas de ser gordo, da circunferência abdominal, da importância de se cuidar, o olho de desaprovação do outro, as palavras, as “dicas” só ferem e magoam, e a gente desconta na comida, no trago e no doce. 

no dia que eu me olhei, eu estava realmente gorda, e, estava deixando de me amar. talvez até por assumir para mim um corpo e um peso que não me pertenciam. as palavras que me fizeram pensar nessa realidade foram as palavras francas, honestas e simples do meu pai e da minha filha. quando me queixei de dor nos tornozelos (eu calço 36) meu pai me disse:” também, rodinha de fusca carregando jamanta”, doeu, mas doeu engraçado, e eu ri. um dia, perguntei pra minha filha: “tu acha que eu tô uma gorda feia?” e ela me respondeu: “acho que tu descuidada… mas foi tu que perguntou, e tu me ensinou a nunca mentir quando se é questionado” e eu fiquei bège, mas ouvi.

ninguém gosta de ser gordo. nem o Jô. por que eu, exibida ia gostar? foi esse o dia que eu resolvi procurar um médico. um clínico, para ter a noção da dimensão do estrago que eu tinha provocado em mim mesma. e eu me assustei. além do peso físico carregava a carga de estar me escondendo dentro da capa isolante da minha gordura. todas as taxas estavam alteradas, exceto glicose. triglicerídeos, colesterol, a zona. esteatose hepática, gama GT e dores de todo tipo. reduzi a comida lentamente. no primeiro mês emagreci quatro kg, nos próximos dois, dois, três, e nesse último quatro. depois de seis meses totalizei DEZENOVE kg. e não estou “magrinha”, ainda tenho alguns passos para dar. 

qual é a receita?

amor próprio, firmeza emocional, honestidade consigo mesmo. muita água. nunca deixar de comer o que quer,  mas, observar o limite e a necessidade do corpo. nunca tomei refrigerante light, diet, zero. não tomei uma gota de adoçante. não fui pra academia morrer de suar. sempre que eu quis comer bolo, chocolate, bolacha, pastel, cuca eu comi, mas comi um quarto do que eu comeria, buscando sempre uma compensação. se eu quero comer um chocolate, mais tarde eu não vou comer pão, vou comer fruta. 

a alimentação é um jogo de peças que se encaixam. engordar ou emagrecer tem mais da metade de fatores emocionais a serem analisados, respeitados e tratados. tomei uma medicação para ansiedade, que eu acabei retirando por conta própria, porque me deixou com uma sensação de brochume. (e não adianta ser mega gostosa e não dar pro marido) sigo tomando espironolactona para o meu ovário policístico (anti androgênico), e tomei orlistate, que faz uma separação lipídica para que a gordura não seja absorvida pelo meu organismo. 

estou mais leve, mais feliz, mais disposta, passei um pouco de fome, mas estou bem, porém é bom lembrar: milagres não existem, remédio de nenhum tipo resolve obesidade se a pessoa comer igual. é como colocar gasolina no tanque do carro e não andar com ele, ele não gasta, e aí a gente vai, e coloca mais, e mais… e ele não gasta. aí, sobra. e essa sobra é gordura. alimente-se para viver, mas não viva para se alimentar. tem mais coisas bacanas pra se fazer. não tome remédios sem o consentimento de um médico, e, muito importante: confie no seu médico, reconheça-se e procure ajuda. 

olhe-se, problematize se não ficar satisfeito, brigue com o seu organismo, com seus pensamentos. emagreça o cérebro. veja-se magro, sinta-se magro. não é fácil, mas não é impossível, e não queira resolver de hoje para amanhã um problema que foi acumulado durante meses. funciona e não mata.

um oitão na cintura

o ofício de professor tem lá seus desajustes… salários, valores familiares, vaidades, autoridade… algumas vezes a única coisa que faz com que nos sintamos melhores é não estar lá, não ter que fazer, parar… parece que a luta é muita, que a batalha é maior do que nós podemos enfrentar.

um dia depois do outro. e vem um sopro de vida, um golpe do destino, e… uma nova escola, novos colegas, novos alunos.

e chega um ponto em que a cabeça da gente se transforma num vendaval, numa maré que sobe, transborda…

a moça branca sobe o morro, a moça branca tem cabelo colorido, a moça branca não é da comunidade. a moça branca sofre um choque de realidade. acabou a tevê, acabou a notícia, na escola tem polícia! não seria nada se fosse apenas vaidade.

cidade de deus, morro do alemão, rocinha.  favela meu nêgo, é bem menos intensa pela tevê. lá dentro não é o medo. lá dentro é olhar a foto da mãe na parede, e pensar em não fraquejar.

quem me olha na rua não tem ideia do sentimento que carrego dentro de mim.

quando chego na escola passo a fazer parte da comunidade, da realidade, da rotina, do viver e da insanidade que existe em duvidar da própria capacidade humana.

tudo o que uma mulher de carpete soube até aqui da vida “al lado del camino” foram contações de história em projetos sociais, e a vida que passa na tevê.

lá dentro da sala de aula, represento  toda minha honestidade, levo junto com o livro texto um amor que se pode respirar…  olho filhos que desconhecem suas raízes, que desconhecem palavras faladas em tom normal, que reconhecem  armas, drogas, sexo sujo, animalesco.

e tenho olhos nem sempre atentos, que desviam o olhar e tem medo de amor. não sei rezar direito, mas sei elevar meu pensamento, então eu respiro, e sofro um pouco, porque o bom só é bom quando é para todos.

alguns chegam sem café, e talvez aquela merenda seja a única refeição do dia. sabem histórias de dor, de armas, de prostituição, de medo no olhar. alguns não sabem como é ganhar colo, não reconhecem os meus sinais básicos de afeto.  as minhas crianças não têm infância. as minhas crianças são adultos pequenos com ânsias de dinheiro fácil, de sexo fácil e de comida no prato. tive que aprimorar meu vocabulário básico de gírias, eu tive que pedir ajuda para os racionais MC’s, eu tive que chorar por horas.

eu não quero gritar, porque não posso. não posso repetir um comportamento que condeno. eu quero que eles se permitam serem amados. como o amor para eles talvez tenha conotação diferente, eu preciso esticar e moldar meu amor, até que ele consiga chegar lá dentro do coração. eu preciso de força, de luz, de paz de espírito. eu preciso de paz que eu nem sempre tenho, e de serenidade… eu quero ter meu amor correspondido, eu quero uma fresta na janela da alma… eu quero abraços sem medo. eu quero a infância de volta. preciso protegê-los  da vida adulta, da dureza  de conhecer o crime, da dureza de participar do delito.  de vender o próprio corpo.  machuca ver a infância mutilada, perdida, a ausência de contatos reais, de afeto positivo e incondicional. e eu reclamando porque o split pingava na área…

a raposa do pequeno é príncipe disse que a gente é eternamente responsável por aquilo que cativa. o que me preocupa nessa oração não é o advérbio eternamente… 

não tenho medo da pólvora, do oitão na cintura. eu tenho medo é desse país e de onde a gente vai parar.